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Mato Grosso do Sul tem recorde histórico de feminicídio em 2022

Mato Grosso do Sul tem recorde histórico de feminicídios em 2022. Até esta quarta-feira (28 de dezembro), o estado registrou 43 ocorrências de mulheres mortas por causa do gênero, maior número registrado anualmente desde a criação da Lei do Feminicídio (nº 13.104), em 2015.

Os dados são do Serviço Integrado de Gestão Operacional (Sigo) da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e representam um aumento de quase 28% com relação a 2021, quando foram registrados 31 homicídios qualificados por feminicídio no estado.

Campo Grande teve 13 dos 43 feminicídios, sendo a cidade onde mais mulheres foram assassinadas por causa do gênero, em 2022.

Feminicídio

A Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015, prevê o feminicídio como qualificadora do crime de homicídio e o inclui como crime hediondo. De acordo com a lei, o feminicídio é um homicídio qualificado praticado “contra a mulher por razões da condição de sexo feminino”, onde envolve “violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher”.

A delegada da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Campo Grande, Maíra Pacheco Machado comenta que o feminicídio tem como causas vários fatores.

“Patriarcado, machismo estrutural, ciúmes aliado e fomentado pelo álcool e outros usos excessivos e abusivos de entorpecentes”.

A mestra em gênero e doutora em psicologia social, Jacy Curado destaca que o aumento no número de casos de feminicídio é reflexo de uma crescente cultura da violência no Brasil.

“É uma cultura da violência no geral cada vez mais agravada pelo nosso contexto brasileiro, é uma cultura de violência, de armamento, então uma coisa faz parte da outra. Há um agravamento da nossa cultura da violência, isso vai repercutir com esse viés de gênero”, afirma.

Especialistas indicam que a maioria dos casos de feminicídio são precedidos por períodos em que a vítima sofreu violência doméstica pelo assassino, como cita a psicóloga social da Subsecretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (Semu) de Campo Grande, Márcia Paulino.

“O feminicídio tende basicamente como o ápice da violência contra a mulher. Na maioria das vezes, ele está associado a um histórico de violência doméstica. E tem os casos de feminicídio que não estão relacionados à violência doméstica e envolve a condição de menosprezo à mulher, mas a maioria está relacionada à violência doméstica”, afirma Paulino.

De acordo com a psicóloga, em grande parte dos casos denunciados de violência doméstica está presente o ciclo da violência.

A psicóloga norte-americana Lenore Walker identificou que as agressões cometidas em uma relação conjugal ocorrem em um ciclo que se repete. Chamado de ciclo da violência, este padrão é explicado pelo Instituto Maria da Penha da seguinte forma:

Fase 1: Aumento da tensão

O agressor começa a demonstrar irritabilidade por coisas insignificantes, além de humilhar a vítima, fazer ameaças e destruir objetos. A vítima muda o comportamento, tentando não “provocar” o agressor, o que causa nela sensações como, tristeza, angústia, ansiedade.

“Poucas vezes essa fase é entendida pelas pessoas envolvidas como violência”, comenta a psicóloga social da Semu.

Fase 2: Ato de violência

Nesta fase, o agressor pratica violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial contra a vítima, que pode se sentir paralisada e sem reação. A mulher sofre tensão psicológica severa, que provoca insônia, perda de peso e fadiga constante, além de pena de si mesma e vergonha.

Fase 3: Arrependimento

Também conhecida como “lua de mel”, esta fase é caracterizada por pedidos de desculpas e promessas de que as agressões anteriores não irão se repetir.

“A gente sempre fala que ninguém casou para ver o seu sonho, muitas vezes de ter uma família e um casamento perfeito, terminar dessa forma. Então, geralmente as mulheres acreditam na mudança e perdoam quando há o pedido de perdão e as promessas de não repetir o comportamento a partir de então”, diz Paulino.

Há um período relativamente calmo, em que a mulher relembra dos momentos felizes da relação e acredita nas mudanças do parceiro. Porém, tudo muda quando o ciclo retoma ao começo e a tensão começa mais uma vez.

A psicóloga social da Subsecretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (Semu) de Campo Grande, Márcia Paulino detalha que há dois grandes perigos que relacionam o ciclo da violência ao feminicídio.

O primeiro é o aumento da intensidade da violência. “As violências nunca começam de forma grave, elas começam de formas não entendidas como grave, um empurrão, um puxão de cabelo, às vezes tapa, um grito e as violências vão ficando cada vez mais graves. Essa é uma das características do ciclo da violência, podendo até chegar à morte”, afirma.

O segundo é o tempo entre um ciclo e outro. “O que acontecia esporadicamente, lá uma vez ou outra, passa a acontecer de forma mais frequente. Esse ciclo vai se intensificando e é nesse momento que a gente considera o risco maior para a mulher, principalmente quando há o rompimento de um relacionamento e onde a mulher às vezes fala: ‘eu não quero mais, eu não aguento mais, não quero mais passar por isso’ e ela rompe”, explica a psicóloga.

Paulino afirma que o momento do rompimento é o de maior risco de morte para a mulher dentro do ciclo da violência. “As pesquisas mostram que o momento da separação é o momento em que as mulheres são mais assassinadas. Então, há o envolvimento direto entre o ciclo da violência e o feminicídio”.

Fonte G1MS

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